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09 de fevereiro de 2026
Acabei de terminar meu segundo longão do mês. Foram 34km de reflexões.
Gestão de tempo é sinônimo de tomada de decisão com recursos limitados.

A de hoje nasce do montanhismo, mas eu quero olhar pra ela com um óculos que faz sentido pra qualquer gestor: decisão sob restrição de tempo. Você pode chamar de gestão de tempo se quiser — eu chamo de “tomada de decisão com prazo, risco e energia limitada”.
Quando você sobe uma montanha uma boa gestão de tempo é uma das dimensões essenciais para aumentar a probabilidade de sucesso, que no montanhismo, é conquistar o cume, sujeito a restrição de que você tem que voltar para casa vivo e inteiro.
A conquista do cume sem a volta para casa não faz sentido algum.
A história só tem graça quando é contada por mim.
Antes de qualquer coisa, deixa eu organizar isso como um mini modelo econômico, porque ele evita autoengano:
A função objetivo é maximizar a chance de um round trip bem-sucedido. Traduzindo: chegar ao cume e voltar em segurança.
As restrições aparecem rápido: tempo (dia, janela de clima, luz), energia (física e mental), recursos (água, comida, equipamento), risco aceitável. E as variáveis se dividem em duas famílias: as que eu controlo e as que eu não controlo.
São muitas variáveis que você precisa ter consciência, das quais algumas você consegue controlar e outras não. Hoje, ceteris paribus, eu vou assumir que o que eu não controlo está “a favor” (ex.: clima). Então eu foco no que dá pra gerir de verdade: o que está entre o pescoço e os pés.

A primeira regra é quase chata de tão simples: defina um horário de retorno/limite e respeite. A ideia é evitar que o plano morra do jeito mais previsível possível: escurecer, cansar e perder margem.
A primeira coisa que você tem que ter clareza é qual o horário limite para eu atingir o cume e conseguir descer em segurança.
Repara: isso é diferente de “horário pra chegar no topo”. O que manda é o horário de ainda estar em terreno seguro com margem, porque a descida cansado, com luz indo embora, é outro esporte.
Daí o problema vira backward planning:
Você olha o horário limite e volta no tempo: qual ritmo médio eu preciso manter? Onde inevitavelmente vou ficar mais lento (trechos técnicos, navegação, subida mais íngreme)? Onde dá pra recuperar sem me destruir? Em que partes eu vou parar — e quanto essas pausas custam de verdade?
No fundo, tempo não some só em grandes eventos. Ele escorre em microdecisões. Cinco minutos aqui, dez ali… e quando você vê, você queimou a margem. Em ambiente de pressão de tempo, isso piora porque o cérebro tende a buscar atalhos: decide mais rápido, com menos informação, aceitando um trade-off entre velocidade e acurácia.
Com o plano na mão, vem a pergunta adulta (e que muita gente evita):
Eu realmente tenho condições de atingir meu objetivo dado os obstáculos que tenho no caminho? Eu tenho preparo físico?
Se a resposta é “não”, insistir é só ego disfarçado de coragem. Se a resposta é “sim”, aí o desafio muda de natureza: vira jogo mental.
Ansiedade, medo, pressa, desconforto, dor, fome, frustração… tudo isso concorre pela sua atenção. E atenção é um recurso finito. A psicologia descreve isso como perda de eficiência do controle atencional sob ansiedade: você fica menos “dirigido pelo objetivo” e mais capturado por sinais de ameaça (o vazio, o barulho, o “e se…”). Na prática, você erra mais, hesita mais, ou acelera quando não devia.
Além disso, tem uma bomba silenciosa chamada fadiga mental. Um estudo experimental clássico e revisões posteriores indicam que, quando você está mentalmente fatigado, a performance de endurance tende a cair principalmente porque o esforço percebido aumenta — você “sente” mais pesado e desengata antes, mesmo sem uma queda proporcional do sistema cardiorrespiratório.
Às vezes não é que seu corpo “quebrou”.
É que seu cérebro aumentou o preço subjetivo de continuar.
E, quando você está sozinho, erros de julgamento e gestão de tempo em uma montanha podem ser fatais.
A ansiedade mental pode psicossomatizar e drenar sua energia física te fazendo desistir mesmo com seu corpo físico em condições de prosseguir. A má gestão do tempo pode te fazer ter que abandonar o objetivo mesmo com seu corpo físico em condições de prosseguir. E aqui autoconhecimento, experiência e autopercepção é tudo.

No montanhismo eu aprendi a gerenciar melhor meu tempo porque eu aprendi a olhar para o futuro, montar a estratégia do caminho que precisa ser seguido, avaliar bem as restrições, requisitos, e dificuldades, e com base nisso fazer um bom planejamento do que precisa ser executado.
E este entendimento aprofundado me permite atingir o objetivo no tempo previsto.
Agora, trazendo isso pro mundo do gestor.
Na empresa, a “montanha” pode ser um projeto, uma meta trimestral, um lançamento, uma virada cultural. O “cume” pode ser bater um número. Mas o que quase ninguém explicita é a parte da volta: reputação, caixa, pessoas inteiras, compliance, saúde do time.
É por isso que eu gosto de traduzir turnaround time em duas coisas bem objetivas:
1) Critérios de não negociação: o que me faz parar, recalcular, ou despriorizar — mesmo que a meta esteja “logo ali”? (Isso é governança, não covardia.)
2) Margem explícita: qual é a folga que eu estou comprando pra não morrer no final? Montanha sem margem vira loteria. Projeto sem margem também.
Um dos grandes inimigos aqui é um velho conhecido: otimismo exagerado. Em projetos, a gente tende a subestimar duração, custo e risco; e superestimar nossa capacidade de “dar um jeito”. Esse argumento é discutido em gestão como planning fallacy e “visão interna”, e uma recomendação recorrente é buscar a “visão externa” (dados de projetos semelhantes) para calibrar previsão.
E tem uma ferramenta que eu acho a cara da montanha: o pré-mortem. Antes de começar, você assume que o projeto fracassou e pergunta: “o que deu errado?”. A ideia é abrir espaço para riscos e fraquezas aparecerem na fase em que ainda dá tempo de ajustar.
No fim, montanha e empresa se encontram na mesma lógica: sucesso é atingir o objetivo sem violar as restrições que tornam a vida possível no dia seguinte.
Então eu deixo uma pergunta simples, que já me salvou de decisões ruins na trilha e no trabalho:
1) Qual é o seu horário limite de retorno?
2) Qual é a regra que te faz dizer “daqui não passo", mesmo quando o cume parece perto?
Pronto para a próxima trilha?