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02 de outubro de 2026 · 8 min de leitura
Da ruptura espetacular de 2016 ao gelo azul de milênios: 10 fatos sobre o Perito Moreno que vão mudar como você enxerga esse glaciar antes de visitá-lo.
O Glaciar Perito Moreno é uma das maiores curiosidades da Patagônia argentina: um muro de gelo de 60 a 74 metros de altura que avança em direção ao lago todos os dias, estala como canhão e, de tempos em tempos, colapsa em espetáculo ao vivo diante de centenas de pessoas. Antes de embarcar para El Calafate, vale entender o que está por trás desse fenômeno, porque o contexto muda completamente a experiência na beira das passarelas.
Reunimos aqui dez fatos verificados sobre o Perito Moreno: dimensões reais, a física do gelo azul, o histórico das rupturas, o que esperar de cada tipo de visita e por que esse glaciar é uma exceção num planeta onde a maioria dos campos de gelo está em retração. Alguns números vão surpreender.

O Perito Moreno cobre 250 km² de superfície e se estende por 30 km de comprimento, com largura máxima de 5 km. Para ter uma referência prática: segundo o Guia Melhores Destinos, essa área equivale a mais de 30.000 campos de futebol. A profundidade média do gelo é de 170 m, e a face voltada ao Lago Argentino varia entre 60 e 74 m acima da superfície da água. É o equivalente a um prédio de 20 andares, mas feito inteiro de gelo azul e branco.
Tudo isso dentro do Parque Nacional Los Glaciares, na Província de Santa Cruz, Argentina, a aproximadamente 80 km de El Calafate por estrada pavimentada.
O Parque Nacional Los Glaciares foi reconhecido como Patrimônio Mundial da UNESCO em 1981, ano em que a organização iniciou a lista de sítios naturais. O Perito Moreno é o ponto central do parque e o que atrai o maior volume de visitantes, mas o parque contém outros glaciares e os campos de gelo patagônicos que alimentam boa parte da hidrologia da região. Esse contexto de proteção internacional também regula o acesso: o trekking sobre o gelo só pode ser feito com guia especializado e crampons homologados, sendo proibida a entrada no glaciar sem orientação profissional.
Enquanto a maioria dos glaciares do mundo perde volume de forma acelerada, o Perito Moreno avança cerca de 2 metros por dia, o que equivale a aproximadamente 700 metros por ano. Isso não significa que ele está crescendo indefinidamente: segundo estudos citados pelo portal Patagonia.com.ar, sua massa não mudou substancialmente nos últimos 500 a 1.000 anos. O glaciar perdeu pela frente (calving) praticamente o mesmo volume que ganhou pelo avanço do gelo ao longo do tempo, mantendo uma dinâmica de equilíbrio rara no contexto atual de mudanças climáticas. Essa estabilidade é parte do que o torna excepcional.

Se você olhar para o Perito Moreno em um dia claro, vai perceber que partes do gelo têm uma tonalidade azul intensa, especialmente nas fraturas e cavernas internas. A explicação é física: o gelo muito antigo e altamente comprimido absorve os comprimentos de onda da luz vermelha e amarela, refletindo predominantemente o azul. Quanto mais comprimido e livre de bolhas de ar o gelo, mais intenso o azul. É por isso que um bloco recém-desprendido, ainda poroso, parece branco, enquanto o gelo das camadas mais profundas brilha em tons turquesa.
O processo contínuo de desprendimento de blocos de gelo, chamado de calving, produz sons que o Guia Melhores Destinos descreve como comparáveis a tiros de canhão, ouvidos a grandes distâncias das passarelas. Os blocos que caem no lago podem ter vários andares de altura. Não há horário fixo para isso acontecer: o glaciar trabalha o tempo inteiro, e ficar parado nas passarelas por 20 ou 30 minutos já costuma garantir ao menos um evento de desprendimento visível. Binoculares ajudam a identificar as rachaduras antes que o bloco ceda.
À medida que o glaciar avança, ele pressiona a Península de Magalhães e bloqueia o Canal de los Témpanos, criando uma ponte natural de gelo entre o glaciar e a margem. Essa barreira faz com que o nível da água de um lado do canal suba progressivamente em relação ao outro. A pressão vai aumentando até que a ponte cede, e o gelo colapsa em blocos enormes num espetáculo visível e audível de longe.
A primeira ruptura documentada ocorreu em 1917, depois que o glaciar percorreu 750 metros ao longo de 17 anos (de 1900 a 1917). No século XXI, houve rupturas registradas em 2004, 2006, 2008, 2012 e 2016. A de 2016 foi a maior desde 1988: havia uma diferença de nível de 11,25 metros entre os dois lados do canal, e a ruptura total ocorreu em 10 de março de 2016, às 10h55, diante de centenas de turistas e moradores. Segundo o portal Quasar Expeditions, as rupturas acontecem a intervalos variáveis, aproximadamente a cada 2 a 4 anos no século XXI, mas não há como prever com precisão.
O nome "Perito Moreno" causa confusão: muita gente pensa que é uma referência ao local ou a um general. Na verdade, o glaciar leva o nome de Francisco Pascasio Moreno (1852 a 1919), explorador e cientista argentino que foi fundamental para a demarcação das fronteiras entre Argentina e Chile e para a criação do primeiro parque nacional argentino. "Perito" é o título profissional que ele recebeu por seu trabalho técnico de demarcação, não parte do nome. A história completa do personagem ajuda a entender por que o Parque Nacional Los Glaciares existe como existe hoje.

O Perito Moreno deságua no Lago Argentino, o maior lago do país, que por sua vez alimenta o Rio Santa Cruz e chega ao Atlântico Sul. Os icebergs desprendidos durante o calving flutuam pelo lago em direção à cidade de El Calafate, e é comum ver blocos de gelo boiando a quilômetros do glaciar. Esse sistema hídrico, ancorado nos campos de gelo patagônicos, é uma das principais reservas de água doce da região.
Há duas formas principais de visitar o Perito Moreno, e a escolha muda bastante a experiência:
|
Modalidade |
Duração |
O que inclui |
Para quem |
|---|---|---|---|
|
Passarelas (pasarelas) |
Livre, geralmente 2 a 4h |
Incluído no ingresso do parque; redes de pontes com vistas frontais e laterais do glaciar |
Todos os perfis |
|
Mini Trekking no gelo |
~1,5h sobre o glaciar |
Barco + crampons + guia especializado; caminhada sobre o gelo com parada para whisky escocês gelado |
Quem quer pisar no gelo sem grande esforço físico |
|
Big Ice |
~4h sobre o glaciar |
Barco + crampons + guia + acesso a zonas mais remotas do gelo |
Quem busca imersão maior e tem condicionamento para terreno irregular |
O trekking sobre o gelo exige guia especializado e crampons homologados: é proibido entrar no glaciar sem orientação profissional. As passarelas, por outro lado, são acessíveis a qualquer pessoa com mobilidade básica e oferecem ângulos privilegiados sem custo adicional ao ingresso.
Se você estiver em dúvida sobre o que levar para o dia de visita ao glaciar, o post O que levar na mochila de ataque numa trilha bate e volta na Patagônia tem uma lista detalhada com o que faz diferença no outono e no verão patagônico.
O verão patagônico vai de novembro a abril, com temperaturas entre 5 e 18°C e até 17 horas de luz solar por dia. É a janela com melhores condições de acesso, visibilidade e clima para a maioria dos visitantes. O outono (março e abril) oferece menos turistas e luz dourada no final do dia, o que muda completamente a fotografia. O inverno é possível, mas com dias muito curtos e clima mais instável.
O acesso ao glaciar a partir de El Calafate é feito por estrada pavimentada, com transfers organizados que percorrem os 80 km. Não há como chegar ao parque de forma conveniente sem algum tipo de traslado organizado.
A visita ao Glaciar Perito Moreno faz parte do roteiro da expedição El Chaltén: A Ascensão: 8 dias na Patagônia argentina, nível moderado, grupos de no máximo 8 pessoas, com hospedagem em hotel todas as noites. O roteiro combina as trilhas clássicas de El Chaltén (Laguna de los Tres e Laguna Torre, com vistas para o Fitz Roy) com o dia no Perito Moreno em El Calafate. É a forma mais completa de ver os dois pontos altos da Patagônia argentina numa única viagem.
A expedição inclui 4 meses de preparação física com o preparador Marcelo Henrique Alves da Silva, guia local credenciado, guia brasileiro da Vida na Montanha, seguro viagem e aventura, e transfers para todas as trilhas. Passagem aérea não está inclusa.
As próximas saídas disponíveis são em 28 de dezembro de 2026, 6 de fevereiro de 2027 e 21 de março de 2027: todas dentro da janela ideal de verão patagônico. Se quiser mais detalhes sobre o roteiro e o que esperar de cada dia, veja o calendário completo de expedições ou fale diretamente com a equipe pelo WhatsApp.
Para entender o nível de preparo físico necessário, o post Guia prático de preparação física para trekking explica o que treinar e por quanto tempo, especialmente para quem está começando do zero.
Não da mesma forma que a maioria dos glaciares. Estudos indicam que a massa do Perito Moreno não mudou substancialmente nos últimos 500 a 1.000 anos, mantendo uma dinâmica de equilíbrio entre o avanço e o desprendimento de gelo. Ele é uma exceção notável no contexto global de retração glacial.
Não é possível prever com precisão: as rupturas ocorrem a intervalos variáveis, aproximadamente a cada 2 a 4 anos no século XXI, dependendo da velocidade de avanço e das condições do lago. A última ruptura de grande escala registrada foi em março de 2016. Qualquer anúncio de ruptura iminente costuma vir das autoridades do Parque Nacional Los Glaciares.
O verão patagônico, de novembro a abril, oferece as melhores condições: temperatura entre 5 e 18°C, até 17 horas de luz solar e acesso sem restrições climáticas. Março e abril têm menos turistas e luz mais quente no final do dia, boa opção para fotografia.
Sim, pelo Mini Trekking, que dura cerca de 1,5 hora sobre o gelo com crampons fornecidos e guia especializado. Não exige experiência técnica em escalada ou montanhismo, apenas disposição física básica para caminhar em terreno irregular. O Big Ice é mais longo (cerca de 4 horas) e indicado para quem tem melhor condicionamento.
Calving é o processo de desprendimento de blocos de gelo da face do glaciar. Acontece porque o gelo avança continuamente em direção ao lago e, quando a pressão na frente supera a coesão do gelo, blocos se desprendem e caem na água. No Perito Moreno, isso ocorre de forma contínua e produz sons comparados a tiros de canhão, ouvidos a longas distâncias das passarelas.

Sobre o autor
Fundador | Vida na Montanha
Fundador da Vida na Montanha. Em 2022 deixou a vida corporativa para criar uma empresa de expedições com propósito, focada em transformação pessoal e em conexões humanas genuínas na montanha. Hoje lidera os roteiros pela Patagônia, Andes peruanos e Brasil.
Pronto para a próxima trilha?
Sim. El Calafate fica a cerca de 220 km de El Chaltén por estrada, o que equivale a aproximadamente 2,5 a 3 horas de carro. A expedição El Chaltén: A Ascensão, da Vida na Montanha, combina os dois destinos em 8 dias: trilhas no Fitz Roy e Laguna Torre em El Chaltén, mais o dia no Glaciar Perito Moreno em El Calafate.