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23 de fevereiro de 2026
No último fim de semana, meu longão foi dentro de casa. Precisei ficar de molho para fazer um exame de sangue de CPK e garantir que estava tudo certo (está tudo bem!). Mas, mesmo com o corpo parado, a mente não parou.
E foi nesse silêncio que uma ideia voltou com força em minha mente: a sensação de que estamos vivendo numa sociedade sufocada pela competitividade.
A competitividade como padrão de ação. O egoísmo como estratégia individualista. Tirar vantagem do outro como objetivo.
Uma corrida onde muita gente acredita que, para chegar mais longe, precisa empurrar o outro para trás.
Só que a montanha ensina outra coisa.

Quem já fez trekking sabe que existe uma regra em qualquer expedição: o ritmo seguro é o ritmo do mais lento. Não por romantismo. Por sobrevivência.
Porque se um quebra, o grupo inteiro muda o plano. Se um se perde, todo mundo perde tempo, energia e margem de segurança. Se um se machuca, a montanha penaliza: ou você coopera, ou você aumenta o risco de todo mundo.
A Vida na Montanha me ensinou que, se existe um cume coletivo que vale a pena buscar, ele não é o da performance individual. É o de uma sociedade mais harmônica. Mais madura. Mais humana.
E esse cume não é alcançado no modo "cada um por si”.

As expedições me ensinaram algo importantíssimo: cooperação é a melhor estratégia de longo prazo.
A cooperação cria ambiente seguro. Cria confiança. Cria segurança psicológica. Cria um tipo de “força coletiva” que faz o grupo ir além do que cada indivíduo iria sozinho.
E o mais importante: cooperação gera um nível de satisfação com a vida muito maior do que ficar jogando o jogo que a massa joga. Um jogo de competição eterna, comparação constante e vitória vazia.
Na montanha, quando alguém estende a mão, não é para “parecer bom”. É porque é justo. E porque a pessoa entende que o sucesso real é chegar junto.
Eu lembro da primeira vez que subi o Pico dos Marins. Eu não tinha preparo suficiente. Estava muito cansado. E, quando eu estava perto do cume, com a cabeça já no limite, peguei o caminho errado.
Esse tipo de erro, em ambiente de montanha, não é só mais uma escolha ruim. Dependendo do lugar, do clima e do terreno, é o tipo de decisão que pode custar a vida.
Naquele momento, um guia que estava acampado na base me chamou. Pediu para eu esperar. E me guiou até o cume.
Ele não tinha obrigação comigo. Não ganhava nada com aquilo. Não estava tentando provar nada.
E, naquele gesto, ele fez mais do que me levar ao cume: ele cravou um registro na minha memória. Um daqueles registros que viram critério de vida e valor que solidifica a base da sua existência enquanto ser humano.
Tudo.
Porque, no fundo, o que a montanha mostra é que a vida funciona melhor quando a gente entende três coisas:
A gente normalizou uma cultura em que tirar vantagem parece virtude. Mas não é.
A montanha ensina que tirar vantagem pode ser só falta de caráter e, muitas vezes, falta de visão.
A história do Pico dos Marins me ensinou uma coisa que eu carrego até hoje: na minha vida, eu devo sempre optar pelo caminho da cooperação.
Porque é nesse caminho que todo mundo vai mais longe.
E é nesse caminho que a sociedade fica mais próxima de atingir o seu cume: uma convivência mais harmônica, com mais respeito, mais responsabilidade e mais humanidade.
Se a montanha tem um recado para o mundo, talvez seja esse:
Sozinho, você até pode ir rápido. Mas é junto que a gente chega de verdade.
Pronto para a próxima trilha?